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9 de novembro de 2011

A Novembrada de 1979 - Quando os estudantes tinham motivos para protestar


Neste 30 de novembro de 2011 teremos 32 anos do incidente que ocorreu em Florianópolis, conhecido como "A Novembrada" e que foi o início dos movimentos políticos que derrubaram a ditadura militar no Brasil. 

Estudantes, aliados a donas de casa, taxistas, comerciantes e pequenos empresários uniram-se contra uma visita do então presidente do Brasil, General Figueiredo, e burlando todos os avisos, cordões de isolamento e reação da Guarda Nacional partiram para cima do Presidente, mexendo tanto com seus brios que provocaram - segundo reza a lenda - lágrimas de revolta nos olhos de Figueiredo. Também segundo relatos, em resposta a um "gesto" obsceno do excelentíssimo, pediram em coro para que o mesmo "se dirigisse a meretriz que lhe deu a luz", mas não nestes termos. 








A força com que as pessoas da cidade partiram contra o presidente, clamando frases de protesto, batendo panelas, foi tanta e tão amplamente divulgada que acabou por dar coragem a outras manifestações ao redor do país.  Esta data é antes de tudo um marco no histórico da redemocratização do Brasil. Vamos aos detalhes de toda esta história.

O manifesto foi organizado por apenas 30 estudantes na Praça XV de Novembro  onde ficava a então sede do governo do Estado, o Palácio Cruz e Sousa e também onde ocorreria um coquetel de recepção ao presidente, tudo bastante calculado. Eles sabiam que poderiam ser presos mas a ideia era serem vistos e ouvidos.

Não foram eles os únicos a protestar. No caminho entre o aeroporto Hercílio Luz e o Centro da Capital, o presidente foi recepcionado por um "panelaço" de donas de casa, reclamando que não tinham o que comer. 

Na Praça XV, juntaram-se aos estudantes familiares das vítimas do Massacre de Anhatomirim, inconformados com a inauguração de uma placa em homenagem ao Marechal Floriano Peixoto, o presidente que deu origem ao nome Florianópolis, acusado de ter ordenado o traumático fuzilamento dos seus opositores federalistas mais de um século antes de 1979. Muitas outras pessoas uniram-se ao protesto, queixando-se das condições de vida. Os taxistas  estavam inconformados com um novo aumento dos combustíveis, e quase todos eles engrossaram o cordão dos estudantes.


Irritado com os protestos e palavras de ordem, o presidente, que participava de ato oficial dentro do palácio, resolveu ir à sacada. Dali, gesticulou de maneira polêmica com a mão direita. Os manifestantes entenderam o gesto como um insulto, e xingaram a mãe do presidente.

— Minha mãe não está em pauta!! -  repetia um transtornado Figueiredo, que intempestivamente, e contrariando todos os conselhos, inclusive o do então governador Jorge Bornhausen, desceu à Praça para tirar satisfação com os manifestantes. A Guarda Nacional não conseguiu contê-lo, ele atravessou o cordão de isolamento e ficou cara a cara com os estudantes, defendendo a honra da nobre senhora.

O coquetel foi encerrado e os seguranças pegaram o General ali mesmo, colocando-o rapidamente dentro de um carro. Tentando manter a programação original, levaram o presidente para tomar um café no box Senadinho, dentro do Mercado Municipal de Florianópolis, onde voltou a ser ofendido e criticado pela população da Capital. Novamente saiu as pressas, sob uma chuva de frutas e legumes em péssimo estado... 

No saldo final, sete estudantes foram presos, com base na lei de Segurança Nacional. A placa em homenagem a Floriano foi arrancada de seu pedestal e vandalizada pelos manifestantes. Considerando a emoção do momento e o vandalismo em si, acredito que eles tinham razão e motivos de sobra para agirem desta forma.






Prisões e mais protestos 

A agitação na Capital catarinense estava longe de terminar. A Novembrada  renderia capítulos ainda mais dolorosos. Nos dias subsequentes à manifestação, os serviços de segurança do Estado e a Polícia Federal empreenderam uma caça aos líderes estudantis que organizaram os protestos do dia 30. 

Sete pessoas foram presas e enquadradas na Lei de Segurança Nacional: Adolfo Luiz Dias (presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFSC), Lígia Giovanella (vice-presidente do DC e namorada de Dias), Amilton Alexandre, Geraldo Barbosa, Marize Lippel, Newton Vasconcelos Jr. e Geraldo Barbosa. A pergunta que não se refere a estes estudantes, mas aos nossos estudantes de hoje em dia e que não me deixa calar: O que falta para um protesto justo? O que vocês querem para serem realmente presos? Teremos que voltar a ditadura militar para que tenhamos novamente motivo honesto para reclamar? Voltemos a história...

A prisão dos estudantes desencadeou uma nova torrente de reação popular que culminou com um ato público em 4 de dezembro, no largo da Catedral Metropolitana de Florianópolis.

Políticos, ativistas dos direitos humanos, estudantes e uma multidão de populares tomaram as escadarias da catedral para exigir a libertação dos sete líderes estudantis. Como o governo do Estado já havia admitido que não toleraria qualquer tipo de "ação que colocasse em risco a ordem pública", a Polícia Militar se fez presente e reprimiu a manifestação, num confronto muito mais violento se comparado aos registrados durante a visita do presidente Figueiredo. Deputados, mulheres e até crianças foram espancados. 

Determinados, os manifestantes não deixaram o local. A multidão ficou de frente para o pelotão de PMs na rua Acipreste Paiva e em coro cantou o Hino Nacional, protagonizando um dos momentos mais emocionantes da história da Novembrada. Após 15 dias de prisão, os estudantes foram libertados, mas a agonia ainda não havia acabado, pois seguiriam respondendo processo em liberdade. 

Uma junta de notáveis juristas brasileiros (como Dalmo de Abreu Dallari, José Carlos Dias, Robeto Motta, dentre outros) foi reunida pelo advogado Nelson Wedekin, da Comissão de Paz e Justiça da Arquidiocese de Florianópolis, para cuidar da defesa dos sete acusados. Pode-se dizer que o desfecho da Novembrada ocorreu em fevereiro de 1980 com o julgamento promovido pela Justiça Militar em Curitiba. Todos foram absolvidos. 

É, eis aqui parte de nosso passado. O que contaremos a nossos filhos no futuro? 

Fontes: Jornal de Santa Catarina 
           

2 comentários:

  1. "Quando os estudantes tinham motivos para protestar" é verdade... hj em dia se protesta para poder FUMAR MACONHA em campus de Universidade! (ou em cancelamento de Show do Restart)

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  2. Nesse episódio, o bravo povo catarinense honrou a sua história: no ano de 1894, estourou no Rio Grande do Sul uma revolta contra o ditador Floriano Peixoto, que ficou conhecida como Revolução Federalista. Depois de várias escaramuças, os revoltosos, com apoio dos Catarinenses, tomaram a Vila do Desterro e fizeram desta a sua Capital. Os Federalistas prosseguiram e sua marcha chegando até o Paraná, onde tomaram a capital Curitiba. A partir daí, o governo federal conseguiu reagir e expulsou os revoltosos do Paraná e de Santa Catarina. Começou então uma caça às bruxas de grande porte. Para o Desterro, foi mandado o Cel. Moreira Cesar que, com extrema brutalidade, mandou fuzilar, na ilha de Anhatomirin, a vários líderes políticos e pessoas ligadas aos Federalistas. De quebra, mandou mudar o nome da cidade para Florianópolis. Esse foi um dos motivos da revolta em torno da placa de Floriano Peixoto a ser descerrada pelo General Figueiredo quando de sua visita.

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